uma semana de zasf

by bruno

A Zona Autônoma Sem Fios com livros ficou funcionando do parapeito na Lapa de 1º a 8 de dezembro. Mais de 100 janelas enxergam a janela onde coloquei ou router AP. Um panótico involuntário e de mão dupla – ao mesmo tempo em que todos podem vez minha rede, no meu computador aparecem umas 50 redes wifi de vizinhos, todas fechadas.

PhotafPanoramaPicHD (1)

Qual o motivo de tanto proteção? Medo de compartilhar a banda? Medo de que um hacker entre em teu computador? Mas porque não deixar a internet aberta nem quando vai viajar? Achei que o simples fato de colocar uma rede aberta no meio de tanto controle pudesse causar algum reboliço, ou pelo menos abrir algum canal junto à vizinhança. Deixei um mural de Hotglue sem senha, para qualquer um fuçar e deixar recados, mas ele ficou intacto toda a semana. Mas quando eu conferia a lista de endereços distribuídos pelo router, dava pra ver muitos aparelhos se conectando que não eram só os lá de casa:
2012-12-01-21:39:55
Dois dias depois, mais gente ainda – pelo menos 10 vizinhos:

 

2012-12-03-20:43:46

 

Mas o mural continuava igual a quando eu o instalei. Será que eles se conectavam por engano? Mas o nome da rede era bem claro: livros grátis. Só me restava então estudar os arquivos de log de acesso para entender o que esse povo todo tava fazendo conectado. Usei um analisador de logs bem simples, o goacess, disponível no repositório do ubuntu. O comando

goacess -f /var/log/apache2/access.log > report.html

gera esse relatório aqui, que no dia 7 disse que já havia mais de 50 visitantes únicos. Mas o que esse povo tava fazendo lá, se não deixavam vestígios? Estudei o log manualmente mesmo para ver se alguém tinha passado da primeira página e percebi que ninguém além de mim tinha sequer entrado no hotglue. Nem na primeira página, nem que fosse para matar a curiosidade. Um/a dos/das usuários/as mais frequentes, o ip 127, entrou usando um Android e tentando chegar no orkut muitas vezes. O ip 137, também um android, tentou o facebook móvel, o 138 foi atrás da página do JB num Nokia N8. Dá pra perceber que a maior parte da “clientela” seria de usuários de celular e tablet.

Mesmo em um log tão pequeno, eu pude encontrar um sem fim de curiosidades humanas. Alguém foi atrás da banda “100 parea” no google, que eu nunca tinha ouvido falar. Outro procurou um vídeo pornô no site xvideos.com. Um/a terceiro/a tentou fazer check-in no foursquare, e ainda teve um/a fã da música wicked game.

Será que fuçaram o diretório de livros, pelo menos? Que nada. Depois de 7 dias, nem entraram no diretório para ver que livros podiam baixar. No fim da semana, uma visita ia ficar no quarto da ZASF e achei melhor desmontar tudo. Com um pouco de dó, deixei até o dia seguinte, pelo menos, quando o amigo chegou e guardei o equipamento.

E agora que fui documentar não resisti a dar uma última olhadinha no log. Foi a insistência, a fé, o acaso? Sei lá. Mas naquela derradeira madrugada, havia entrado um/a dono/a de iPad, pela primeira vez, que baixou dois livros – A História Social Do Brinquedo, de Walter Benjamin, e o TeleKommunist Manifest, do Dimitri Kleiner. Eu que sempre implico com os usuários de Apple, engoli a soberba e tive que respeitar o gosto daquele/a servo/a do Steve Jobs.

Na volta pro Rio vai ter mais ZASF com certeza.