Cinema Entrópico

by bruno

 

O cinema tem uma estrutura muito rígida. O roteiro, a hierarquia, o produtor, o fundo de financiamento, o plano de negócios. A bitola, a duração, o formato, o dolby digital 5.1, 7.1, o bilheteiro, o cara que destaca os ingressos. A continuísta, o script girl, o colorista,  a autorização da CET, a liberação dos direitos autorais. As catedrais: a cinemateca, o mausoléu de 2 mil lugares, o estúdio de mixagem, a moviola. O super computador para finalização. A linha do tempo do programa de edição.

O cinema entrópico é o que se dissolve, afunda na lama, cutuca o caranguejo. Não tem formato definido, tem duração variável. Não se sabe se é longa, média ou curta. Tem glitches, tem frames perdidos e frames achados. Bugs. São Super-8 revelados em baldes sujos por três pessoas suadas num quarto de empregada num verão sem luz e sem janela. O filme embola: não tente desenrolar. É uma escultura cheirando a química e cerveja. O suor vai desbotar o fixador e você quer ver as gotas.

O cinema sobrevive com transfusões faraônicas de dinheiro. Nos EUA, de franquias, marketing e merchandising. No resto do mundo, do governo. Só isso evita que o cinema tome seu caminho natural: o de se tornar um meio de comunicação secundário, como já aconteceu com o rádio e na próxima geração vai acontecer com a televisão. Ele se mantém apoiando-se nas revistas de fofocas que demandam entediantes cerimônias de premiação com apresentadores patéticos e traje a rigor. O cinema americano e o cinema brasileiro são dois urubus brigando por uma carniça audiovisual que não cheirava bem quando era viva e agora nem sequer fede.

O cinema entrópico prescinde de divulgação e espectadores: em tempos de arquivos globais, os fotogramas mais valiosos são os que se perdem. São filmes que, de preferência, deixarão de existir no fim da sessão. Favor não rebobinar antes de devolver. Não tem replay, não vale a pena ver de novo.

O cinema entrópico quebra as encriptações, derruba paredes da sala, ripa DVDs usando software livre e publica filmes com licenças escritas em guardanapos de boteco. As salas de cinema entrópico não tem saídas de emergência: os seus filmes são a saída de emergência. Não esqueça de ligar seu celular: ele pode vir a ser tela, controle remoto ou tomate dependendo da sessão. A sala de cinema entrópico ideal é uma ocupação de sem-tetos, um acampamento do mst. É a rua: o som espacial é consequência das sirenes de ambulância, roncos de mendigos, o 3D são travestis circulando em frente à tela. Seus longas são quilômetros de metragem 35mm esticados pelos parques, enredando a cidade.

Enquanto isso, o  cinema se encerra em novos currais. DCI, DRM, SOPA, PIPA, Trusted Device List, Key Delivery Message, Forensic Marking. Mas apesar dos esforços dos burocratas da imagem, a flecha do tempo só aponta para o aumento da desordem. Abraçar o caos é uma lei da termodinâmica.  O cinema entrópico urge.