DOCUMiNTA

utópico||entrópico

video glitch #1

salvando em pb em espaço cor

testMovie2012-12-27-17-13-33-215 from brunovianna on Vimeo.

ladrão de imagem

É assim: acelera, freia, pula, puxa, se pendura ela quebra, enfia na mochila, salta na moto, partiu- é parkour com motocross, nem me viu, não ficou nem um frame pra o gosto do segurança de qualquer jeito deve estar dormindo, o segurança mesmo é uma máquina, um rolo de fita infinita, sempre gravando e sempre apagando, apagando e gravando, esquecendo e lembrando, ou não tem mais fita, o HD é quem lembra, deve estar numa sala lá dentro no ar condicionado, dorme e acorda a cada frame

o vento zune no capacete, os sinais ficam pra trás, o bafo quente vira refresco, ninguém atrás ninguém na frente, a câmera na mochila já não vigia, eu é que tô de olho nela pra não cair no asfalto

paro para uma cerveja, cigarro, para não resistir a uma olhada na caça antes de chegar na casa- a decepção- já tinha essa sony- vai pra caixa da revenda, não pra sala de troféus, vai garantir a cerveja, mas não a moral- prezo a coleção, tenho das vintage analógicas às últimas digitais

pras que eu tenho repetida o mercado é certo, instalo e dou manutenção no morro mesmo, tenho minha ética- não boto elas pra vigiar favelado- só trabalho com o movimento e tá bom, não quero ficar rico, desde quando preto vira rico aqui- eu vim aqui pela zoação- mas já perdendo a graça, não tem câmera que eu não tenha roubado já

saio atrás de uma chinesa que vi num galpão da zona norte, parece um modelo novo, gazela negra – vou junto com os irmãozinhos da pichação, eles deixam um tag e eu tiro outro, o pé desliza, a mão segura o ar, o cotovelo bate, seguro n a câmera e que me segura fica grudada pelos fios, suficiente para apontar pra minha cara, eu pendurado

me toquei que tava olhando pra alguém. tenho que soltar. o chão tá longe, mas não tanto. Me toquei que alguém tá olhando pra mim. Sou eu lá no monitor, sou eu preto e branco preto. Já não sou invísivel. Tenho que soltar. Aqui tá bom. Quem será que tá lá. Pra onde vai esse meu vídeo. Tenho que soltar, tô dando mole.

Que isso vai ficar que nem otário me agarram rolo no chão com meu broder me arrasta pra fora montamos partimos olha lá os caras saindo atrás da gente otários não podem sair de lá o ronco aumenta os carros passam velozes pra trás sou sagaz no videogame já fui nem viu

mas fiquei

placa avó

2013-01-17 15.56.26 by brunovianna
2013-01-17 15.56.26, a photo by brunovianna on Flickr.

rua ledo gonçalves, saara, rio

Cinema Entrópico

 

O cinema tem uma estrutura muito rígida. O roteiro, a hierarquia, o produtor, o fundo de financiamento, o plano de negócios. A bitola, a duração, o formato, o dolby digital 5.1, 7.1, o bilheteiro, o cara que destaca os ingressos. A continuísta, o script girl, o colorista,  a autorização da CET, a liberação dos direitos autorais. As catedrais: a cinemateca, o mausoléu de 2 mil lugares, o estúdio de mixagem, a moviola. O super computador para finalização. A linha do tempo do programa de edição.

O cinema entrópico é o que se dissolve, afunda na lama, cutuca o caranguejo. Não tem formato definido, tem duração variável. Não se sabe se é longa, média ou curta. Tem glitches, tem frames perdidos e frames achados. Bugs. São Super-8 revelados em baldes sujos por três pessoas suadas num quarto de empregada num verão sem luz e sem janela. O filme embola: não tente desenrolar. É uma escultura cheirando a química e cerveja. O suor vai desbotar o fixador e você quer ver as gotas.

O cinema sobrevive com transfusões faraônicas de dinheiro. Nos EUA, de franquias, marketing e merchandising. No resto do mundo, do governo. Só isso evita que o cinema tome seu caminho natural: o de se tornar um meio de comunicação secundário, como já aconteceu com o rádio e na próxima geração vai acontecer com a televisão. Ele se mantém apoiando-se nas revistas de fofocas que demandam entediantes cerimônias de premiação com apresentadores patéticos e traje a rigor. O cinema americano e o cinema brasileiro são dois urubus brigando por uma carniça audiovisual que não cheirava bem quando era viva e agora nem sequer fede.

O cinema entrópico prescinde de divulgação e espectadores: em tempos de arquivos globais, os fotogramas mais valiosos são os que se perdem. São filmes que, de preferência, deixarão de existir no fim da sessão. Favor não rebobinar antes de devolver. Não tem replay, não vale a pena ver de novo.

O cinema entrópico quebra as encriptações, derruba paredes da sala, ripa DVDs usando software livre e publica filmes com licenças escritas em guardanapos de boteco. As salas de cinema entrópico não tem saídas de emergência: os seus filmes são a saída de emergência. Não esqueça de ligar seu celular: ele pode vir a ser tela, controle remoto ou tomate dependendo da sessão. A sala de cinema entrópico ideal é uma ocupação de sem-tetos, um acampamento do mst. É a rua: o som espacial é consequência das sirenes de ambulância, roncos de mendigos, o 3D são travestis circulando em frente à tela. Seus longas são quilômetros de metragem 35mm esticados pelos parques, enredando a cidade.

Enquanto isso, o  cinema se encerra em novos currais. DCI, DRM, SOPA, PIPA, Trusted Device List, Key Delivery Message, Forensic Marking. Mas apesar dos esforços dos burocratas da imagem, a flecha do tempo só aponta para o aumento da desordem. Abraçar o caos é uma lei da termodinâmica.  O cinema entrópico urge.

uma semana de zasf

A Zona Autônoma Sem Fios com livros ficou funcionando do parapeito na Lapa de 1º a 8 de dezembro. Mais de 100 janelas enxergam a janela onde coloquei ou router AP. Um panótico involuntário e de mão dupla – ao mesmo tempo em que todos podem vez minha rede, no meu computador aparecem umas 50 redes wifi de vizinhos, todas fechadas.

PhotafPanoramaPicHD (1)

Qual o motivo de tanto proteção? Medo de compartilhar a banda? Medo de que um hacker entre em teu computador? Mas porque não deixar a internet aberta nem quando vai viajar? Achei que o simples fato de colocar uma rede aberta no meio de tanto controle pudesse causar algum reboliço, ou pelo menos abrir algum canal junto à vizinhança. Deixei um mural de Hotglue sem senha, para qualquer um fuçar e deixar recados, mas ele ficou intacto toda a semana. Mas quando eu conferia a lista de endereços distribuídos pelo router, dava pra ver muitos aparelhos se conectando que não eram só os lá de casa:
2012-12-01-21:39:55
Dois dias depois, mais gente ainda – pelo menos 10 vizinhos:

 

2012-12-03-20:43:46

 

Mas o mural continuava igual a quando eu o instalei. Será que eles se conectavam por engano? Mas o nome da rede era bem claro: livros grátis. Só me restava então estudar os arquivos de log de acesso para entender o que esse povo todo tava fazendo conectado. Usei um analisador de logs bem simples, o goacess, disponível no repositório do ubuntu. O comando

goacess -f /var/log/apache2/access.log > report.html

gera esse relatório aqui, que no dia 7 disse que já havia mais de 50 visitantes únicos. Mas o que esse povo tava fazendo lá, se não deixavam vestígios? Estudei o log manualmente mesmo para ver se alguém tinha passado da primeira página e percebi que ninguém além de mim tinha sequer entrado no hotglue. Nem na primeira página, nem que fosse para matar a curiosidade. Um/a dos/das usuários/as mais frequentes, o ip 127, entrou usando um Android e tentando chegar no orkut muitas vezes. O ip 137, também um android, tentou o facebook móvel, o 138 foi atrás da página do JB num Nokia N8. Dá pra perceber que a maior parte da “clientela” seria de usuários de celular e tablet.

Mesmo em um log tão pequeno, eu pude encontrar um sem fim de curiosidades humanas. Alguém foi atrás da banda “100 parea” no google, que eu nunca tinha ouvido falar. Outro procurou um vídeo pornô no site xvideos.com. Um/a terceiro/a tentou fazer check-in no foursquare, e ainda teve um/a fã da música wicked game.

Será que fuçaram o diretório de livros, pelo menos? Que nada. Depois de 7 dias, nem entraram no diretório para ver que livros podiam baixar. No fim da semana, uma visita ia ficar no quarto da ZASF e achei melhor desmontar tudo. Com um pouco de dó, deixei até o dia seguinte, pelo menos, quando o amigo chegou e guardei o equipamento.

E agora que fui documentar não resisti a dar uma última olhadinha no log. Foi a insistência, a fé, o acaso? Sei lá. Mas naquela derradeira madrugada, havia entrado um/a dono/a de iPad, pela primeira vez, que baixou dois livros – A História Social Do Brinquedo, de Walter Benjamin, e o TeleKommunist Manifest, do Dimitri Kleiner. Eu que sempre implico com os usuários de Apple, engoli a soberba e tive que respeitar o gosto daquele/a servo/a do Steve Jobs.

Na volta pro Rio vai ter mais ZASF com certeza.

gelo quente, entropia, fim de mundo

A entropia é um conceito que instiga muita gente, eu inclusive. Cheguei a fazer um vídeo com celular sobre o tema, devia ser lá pra 2004, quando o festival de Curtas de SP distribuiu um Siemens SX-1 para alguns felizardos filmarem. O vídeo deve andar perdido por aí, mas a instiga continua. Quando eu fui procurar informações sobre processos de cristalização – para uma ideia inspirada pelo Jonathan Kemp para fazer uma oficina na Nuvem – eu topei com vários vídeos falando de gelo quente.

Gelo quente é um processo de cristalização expressa. O acetato de sódio é um sal que derrete a baixa temperatura, uns 50ºC. Mas o interessante é que ele não volta a ser sólido se não houver algum elemento que inicie esse processo. E quando você adiciona esse elemento – um cristal de acetato em estado sólido, por exemplo – ele cristaliza imediatamente.

Claro que desde que li sobre isso só faço derreter, gravar, cristalizar, solver, coagular. E inspirado pela chamada do mutgamb  para publicações no fim de mundo, fiz planos para uma  máquina antientropia. Lá tem mais detalhes sobre como fazer o gelo quente, inclusive receitas caseiras para fazer o acetato de sódio.

ZASF_LIVROSGRATIS

No domingo, dia 1º de dezembro, ativei a zasf lapa.

É uma zona autônoma sem fios. Como assim? Foi batizada pelo efefe, mas o conceito existe há muito tempo. Em Barcelona, eu queria fazer a tienda gratis inalámbrica, inspirado pelas lojas grátis dos okupas. Por aí já andaram fazendo a PirateBox, uma caixa para compartilhar arquivos sem fio.

A ideia é criar uma pequena internet local. Um servidor de arquivos, um AP wifi, alguns arquivos e pronto. O que você acessa nessa Internet? O facebook não, com certeza. Nem teu mail. Mas todos os arquivos que estiverem lá podem ser compartilhados. E o que é melhor, sem a vigilância que rola na Internet “normal”.

No caso da zasf lapa, eu coloquei uns 3Gb de livros, entre livros com e sem direitos, romances, manuais, manifestos, quadrinhos, um pouco de tudo. Coloquei também um mural editável feito em hotglue, caso alguém quisesse deixar algum comentário.

Todos o desenvolvimento técnico foi feito na Nuvem, no encontro Interactivos’12. Efeefe mandou o projeto Redes Autônomas e foi selecionado junto com o Vincenzo  Tozzi. Toda a documentação portanto está nessa wiki. Mas para resumir, o sistema usa uma raspberry pi, onde está instalado um servidor apache, e um AP (router) que roda um dnsmasq – um programa que direciona todos os pedidos de endereço para o site http://zasf. Além disso uma diretiva do apache redireciona os endereços no browser, do contrário aparece o endereço, digamos do google.com, com o nosso conteúdo.

A rede é muito bem aproveitada em um ambiente como a Nuvem, onde a conexão à Internet é precária e podemos oferecer serviços locais. A ideia de lançá-la num bairro como a Lapa é que alguns desavisados podem ver a rede wifi aberta e tentar usar a internet comum. O que vai acontecer nesse caso? Ao invés de chegar no site que ele busca – digamos, http://www.terra.com.br – ele vai ser redirecionado para o site http://zasf, que tem informações sobre o projeto e os links para todo o conteúdo disponível.

A zasf está funcionando como um experimento. Quantas pessoas vão se conectar? Da minha janela deve dar para ver umas 100 janelas. Todos esses apartamentos podem se conectar, baixar livros, subir outros materias ou editar o mural. Num próximo post será analisado o log de acessos desse servidor autônomo para entendermos os resultados.